Conversámos com Marcela Leite, psicóloga clínica na Desenhar Futuros, sobre um fenómeno muito comum: deixar de sentir o corpo durante a intimidade porque a mente está ocupada a vigiá-lo.
O que acontece na tua mente quando te preocupas com a tua imagem
Segundo explica Marcela Leite, quando alguém está preocupado com a forma como o seu corpo é visto durante um encontro íntimo, a sua atenção deixa de estar nas sensações corporais —essenciais para a excitação— e passa a vigiar o próprio corpo. Pensamentos como “será que se nota a barriga?” ou “terá reparado nas minhas estrias?” ocupam o espaço mental que deveria estar dedicado ao toque, ao prazer e ao momento presente.
Quando a mente está tão ocupada com estas preocupações, a pessoa acaba por ficar mais “na sua cabeça” do que no seu corpo, sentindo os estímulos com menos intensidade — o que diminui a excitação e o envolvimento. Além disso, a baixa autoestima e a insatisfação corporal tendem a vir acompanhadas de ansiedade, vergonha e medo de rejeição, emoções que ativam um “modo de alerta” que torna mais difícil relaxar — algo essencial para sentir prazer e atingir o orgasmo.
É importante sublinhar: isto é muito mais comum do que se pensa, e não significa que a pessoa tenha algo de errado. Existe simplesmente uma necessidade de confiança, segurança e presença para que o prazer possa acontecer.

O exercício que ajuda a voltar às sensações
Ainda antes de chegar à intimidade, Marcela Leite recomenda introduzir pequenas práticas de consciência corporal no dia a dia: notar a respiração, as sensações do corpo numa cadeira, a temperatura das mãos. São exercícios simples que treinam a atenção às sensações corporais, para que depois seja mais fácil levar essa mesma consciência para os momentos íntimos — reconhecendo quando se entra em modo de autoavaliação (“como estou a parecer?”) e redirecionando o foco para o que se sente no corpo nesse momento.

Um primeiro passo concreto: praticar a apreciação da funcionalidade do próprio corpo. Dedicar alguns minutos a reconhecer algo que o corpo permite fazer —respirar, mover, sentir conforto— com frases como “hoje reconheço que o meu corpo me permitiu…”. Esta prática tem demonstrado efeitos na redução da autocrítica e no aumento da autocompaixão. Ainda assim, é apenas um ponto de partida — não substitui o acompanhamento psicológico especializado quando a insatisfação corporal interfere de forma persistente na vida sexual.
A comunicação com o parceiro é também fundamental: falar abertamente sobre inseguranças e necessidades de conforto ajuda a criar segurança emocional, e essa segurança reduz o “modo de alerta”, tornando mais fácil estar presente e desfrutar.
Homens e mulheres não vivem isto da mesma forma
A forma como se vive a insatisfação corporal está muito ligada às normas sociais, e não é igual em homens e mulheres. As mulheres costumam estar mais expostas à pressão de atingir um corpo “ideal” —magreza, ausência de imperfeições, juventude—, reforçando a autocrítica e a vergonha centradas na aparência. Nos homens, a pressão costuma estar mais ligada ao desempenho: a ereção, o tamanho ou a resistência durante a relação sexual.
Ambos os géneros podem sentir o peso da insatisfação corporal na sexualidade, mas com nuances diferentes: nas mulheres relaciona-se mais com a aparência, e nos homens com o desempenho — um reflexo, em ambos os casos, do que a sociedade exige a cada um.

Podes consultar a equipa do Desenhar Futuros se preferires uma intervenção psicológica para o teu caso. Também podes escrever à Vivelavita para receber orientação sobre qualquer área da educação sexual; teremos todo o gosto em atender-te e informar-te.
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+ Bibliografia
Bibliografia consultada para a redação deste artigo:
Marcela Leite é psicóloga e coordenadora do Departamento de Psicologia da Desenhar Futuros, onde exerce funções desde fevereiro de 2021. É membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses (cédula profissional n.º 22498). Licenciada em Psicologia e mestre em Psicologia da Saúde e Neuropsicologia pelo Instituto Universitário de Ciências da Saúde, tem especialização avançada em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência (Instituto Português de Psicologia) e em Intervenção Psicológica no Luto (Instituto CRIAP). Conta ainda com formação certificada em áreas como a infertilidade, o diagnóstico pré-natal, as perturbações do comportamento alimentar e a avaliação neuropsicológica.

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