Se sentes que faz tempo que não há faísca com o teu parceiro, mas não discutem nem se dão mal, não és a única pessoa a quem isso acontece. Falámos com Naira León, psicóloga de saúde especializada em terapia de casal e sexualidade com 17 anos de experiência e diretora do Centro de Psicologia Aquiles, sobre um dos motivos que mais vê na consulta: não é falta de amor, é falta de tempo, de energia e de presença. O stress, o cansaço e os ecrãs tornaram-se três convidados invisíveis que se infiltram na intimidade de muitos casais.
Se queres ver a entrevista completa no canal de youtube do Vivelavita, podes fazê-lo a seguir:
O telemóvel, o stress e o cansaço: os três convidados invisíveis na intimidade
Segundo Naira León, não são os casais que discutem aos gritos que mais chegam à terapia, mas sim os que se sentam e dizem que não brigam, que se amam, mas que já não se sentem conectados. O ritmo de vida atual — jornadas longas, hiperprodutividade, listas de tarefas intermináveis — deixa pouco espaço para parar, e esse pouco tempo livre que resta é cada vez mais dedicado a olhar para um ecrã em vez de para o parceiro ou para si mesmo.
Os casais que mais chegam à consulta são os que não se sentem conectados.
A isso soma-se o chamado phubbing: estar à frente do teu parceiro enquanto olhas para o telemóvel, o que envia uma mensagem clara, mesmo que não se diga em voz alta: há algo mais importante do que tu agora mesmo. E essa perceção de não ser prioritário tem um efeito direto sobre o desejo.
Porque é que o cérebro “desliga” o desejo quando está em modo sobrevivência
Este é talvez o ponto mais interessante do ponto de vista psicológico. O stress crónico e a sobrestimulação constante dos ecrãs mantêm o cérebro num estado de alerta semelhante ao que teríamos perante um perigo real. Quando o cérebro está a gerir ansiedade, cansaço ou tensão emocional, prioriza resolver essa emoção antes de ativar o desejo sexual — é literalmente uma questão de sobrevivência antes de ser de prazer.
Naira explica isto com uma imagem muito gráfica: tentar ter intimidade estando desconectados e esgotados é como querer acender fogo com algo que não é combustível. Não é que “não queiramos” o nosso parceiro; é que o corpo, nesse estado, não tem espaço para ativar o desejo.

O desejo não é um interruptor: porque é que não funciona “obrigar-se” a ter sexo
Uma ideia que aparece muito na consulta é a de programar a intimidade como mais uma tarefa da lista: “calha às sextas porque é o único dia que podemos”. O problema não é planear (com filhos, muitas vezes é quase inevitável), mas sim transformar esse momento numa obrigação desconectada dos verdadeiros desejos.
Manter relações sem desejo gera o efeito contrário ao procurado: em vez de ligação, pode gerar ansiedade, evitamento ou até culpa. O desejo, segundo explica Naira, funciona melhor se for cultivado — tanto individualmente como em casal — do que se for forçado por calendário.

Reconectar sem ecrãs: pequenos gestos que reativam o desejo
A boa notícia é que reativar o desejo não começa na cama. Começa em gestos pequenos e constantes:
- Recuperar o contacto físico não sexual: um abraço, uma carícia no cabelo, dar a mão. O contacto pele com pele ativa a ocitocina, a mesma hormona do vínculo que se estimula entre mães e bebés, e que muitos casais deixam de praticar sem perceber.
- Ampliar a definição de intimidade: um duche juntos, uma massagem, um beijo longo sem que “tenha que ir a mais” são também formas de conexão sexual, não apenas o coito.
- Pedir em vez de esperar que o outro adivinhe: se precisas de mais demonstrações de carinho, pedi-lo abre a porta para recebê-lo; esperar que “se dê conta sozinho” costuma gerar frustração desnecessária.
- Cultivar o desejo de forma individual: uma leitura, uma cena de uma série, uma lembrança bonita com o teu parceiro — alimentar a própria fantasia também faz parte de manter o desejo vivo.

Adaptar a intimidade a cada etapa da vida
Uma gravidez, a criação dos filhos, uma doença, o stress laboral: o corpo e a energia disponível mudam com cada etapa, e a forma de viver a intimidade tem que se adaptar com eles. Isto não é um problema em si mesmo, o problema aparece quando nos autoexigimos manter sempre o mesmo ritmo e vivemos como um fracasso o que na realidade é uma adaptação lógica à vida real.
O importante, segundo Naira León, é que essa adaptação seja falada e não seja tomada como garantida: dizer “hoje não me apetece algo ativo, mas sim me apetece estar abraçados nus” mantém a conexão, mesmo que mude a forma que toma a cada noite.
Reconectar com o teu parceiro nem sempre é algo que se resolve sozinho em casa. Se sentirem que precisam de um empurrão profissional, o Centro de Psicologia Aquiles, dirigido por Naira León, oferece terapia de casal especializada tanto presencial como online.

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