Entrar numa app sem ilusão, repetir sempre as mesmas conversas, sentir que tudo é superficial ou até acabar mais desconectado do que antes de começar a procurar. É o que se chama “fadiga de namorar”, e cada vez mais pessoas se identificam com ela. Para entender por que acontece, falámos com Jesús Alonso, docente e sexólogo especializado em aconselhamento e educação sexual, no podcast de Vivelavita.
Se queres ver a entrevista completa, podes clicar em este link para a ver no YouTube.
O que é a fadiga de namorar e por que sentimos isso cada vez mais?
Conforme explica Jesús Alonso, a nossa forma de nos relacionarmos evoluiu muito rapidamente nos últimos 15-20 anos, e essa mudança ocorreu em paralelo ao que ele chama de “autoimagem exigente”: exigimo-nos demasiado em todos os sentidos, e isso repercute diretamente na autoestima e em como nos relacionamos.
A isto soma-se a montra constante das redes sociais, onde vemos “tantas pessoas hiperfelizes, maravilhosas, estupendas” — uma imagem que, segundo Jesús, está muito longe da realidade, mas que gera um stress constante e uma vontade de namorar de forma rápida e instantânea. Procurar essa validação contínua (“para mim, para mim, serei eu”) de forma permanente acaba por gerar cansaço.
Dos “toques” ao scroll infinito: como mudou a nossa forma de namorar
Jesús Alonso lembra como, há não tantos anos, nos conhecíamos em ambientes muito mais espontâneos: o trabalho, um bar, uma discoteca. Hoje, grande parte das conexões começam através de um ecrã, seja em apps ou em redes sociais.
E ainda que há aplicações que tentam melhorar a dinâmica — com perguntas para quebrar o gelo, perfis onde se podem indicar valores pessoais ou que tipo de relação se procura —, para Jesús, o resultado líquido é que nos tornámos mais exigentes, mais seletivos e, paradoxalmente, mais desajeitados na arte de conhecer alguém.

Por que as mesmas conversas de sempre geram tanto desgaste
Um dos fatores que mais contribui para a fadiga de namorar é a repetição: “O que fazes? De onde és? Tens filhos?” — o mesmo guião, uma e outra vez, em cada nova conversa. Segundo Jesús Alonso, por trás deste cansaço há algo mais profundo: uma carência de carinho e de conexão real na sociedade atual.
Ele ilustra com um exemplo geracional: na infância, costumamos dar carinho com mais naturalidade, mas ao chegar à adolescência e à vida adulta, essa rede de apoio próxima se dilui e cada pessoa “começa a procurar a sua própria vida”. Esse vazio é o que muitas pessoas tentam preencher rapidamente através das apps, o que agrava a sensação de stress e de urgência ao namorar.

O desejo também mudou: o que se ganha e o que se perde ao namorar por ecrã
Jesús Alonso é claro num ponto: a química real que se gera cara a cara — essa tensão que se nota em pessoa — não existe da mesma maneira através de um ecrã. De fato, é possível sentir conexão enquanto se fala pelo telemóvel e experimentar uma desconexão total ao ver-vos em pessoa pela primeira vez.
Ainda assim, ele reconhece também uma parte positiva: as redes sociais e as novas tecnologias podem ajudar a manter uma conversa próxima ou até desejo sexual à distância, especialmente em conexões com pessoas que estão longe.
O ponto de alerta chega com padrões como o love bombing (uma avalanche inicial de atenção e interesse), o breadcrumbing (dar pequenas migalhas de atenção para manter alguém preso sem se comprometer) e o ghosting (desaparecer sem explicação). Jesús Alonso adverte que, quando o desejo e a conexão se geram muito rapidamente através de um ecrã, também se rompem com a mesma rapidez — e muitas vezes de um modo que considera pouco responsável a nível emocional.
Como reconectar sem perder a ilusão
A reflexão final de Jesús Alonso é clara: é completamente normal cansar, e cansar de namorar em algum momento da vida também é. Mas o amor, diz, continua a ser “o mais importante do mundo”, e as apps e redes sociais nem sempre são a estratégia mais adequada para encontrá-lo.
A sua recomendação é simples: recuperar as velhas formas de conhecer pessoas, sem deixar de lado completamente o digital, e não desperdiçar as oportunidades de conhecer outras pessoas cara a cara — porque, como ele mesmo resume, “somos seres de encontro”.

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