O prazer das mulheres tem sido, historicamente, o grande esquecido da ciência e o grande mal-entendido da cultura popular. Enquanto a anatomia masculina tem sido estudada em detalhe, a feminina tem estado rodeada de um "sem fim" de termos que muitas vezes geram mais dúvidas do que satisfação. Para pôr ordem neste caos, contamos com uma convidada excecional: Alicia Ridao, psicóloga, sexóloga e especialista em acompanhar as mulheres no seu crescimento emocional e sexual.
Nesta conversa, que podes desfrutar na íntegra no nosso canal do YouTube, desmantelamos a ideia de que existem "mil tipos de orgasmos", falamos sobre a má interpretação da ejaculação feminina e descobrimos porque o cérebro é, na verdade, o comando do nosso prazer.
Vaginal ou clitoriano? a simplificação necessária
Alicia convida-nos a deixar de ver o prazer como um "sumo de frutas" de sabores misturados. Após anos de mitos herdados de figuras como Freud —que taxava de imaturas as que não atingiam o orgasmo através da penetração—, a sexologia moderna é clara: a central do prazer é o clitóris.
Alicia explica que, embora agora estejamos "a dar-lhe rosto" graças ao marketing e às redes sociais, até há bem pouco tempo nem sequer conhecíamos a sua anatomia completa. O que chamamos de "orgasmo vaginal" é, na verdade, uma estimulação das raízes internas do clitóris que abraçam a vagina. Compreender que a maioria das mulheres necessita dessa estimulação específica não é sintoma de um problema, mas de uma anatomia saudável. Como diz Alicia: "Estamos a sobrediagnosticar problemas que não existem; se não alcanças pela penetração, não acontece nada".

Ejaculação e prazer: desvinculando conceitos
Um dos pontos mais interessantes da entrevista é como Alicia desmistifica a relação entre a ejaculação feminina e o orgasmo. Alicia esclarece que são processos totalmente independentes:
- O orgasmo é o pico do prazer, aquele espasmo involuntário onde "sentes que a alma se te vai um pouco do corpo".
- A ejaculação é simplesmente a expulsão de líquido de algumas glândulas que retêm mais ou menos quantidade conforme a mulher.
Alicia insiste que podes ter cinco orgasmos e nunca ejacular, ou ejacular sem sentir prazer. O problema vem do porno, que nos fez acreditar que se não houver "fonte", não há sucesso, quando são funções que não têm por que andar de mãos dadas.
O orgasmo é como um "cervatillo"
Por que, às vezes, por mais que tentemos, o prazer escapa? Alicia utiliza uma metáfora brilhante: o orgasmo feminino é como um cervídeo, um animal assustadiço que foge ante o menor sinal de ameaça.
Como mamíferos, se o cérebro detectar stress (seja por uma gripe, um problema no trabalho ou a pressão para "cumprir"), ativa o modo sobrevivência e desliga a resposta sexual. Alicia enfatiza um fator que costumamos ignorar: a medicação. Muitos ansiolíticos e antidepressivos mantêm-nos "lineares", impedindo-nos de chorar mas também de rir à gargalhada ou de chegar a esse pico de prazer.
Anorgasmia: é um problema físico ou de hábito?
Alicia aborda a anorgasmia com muita naturalidade. Esclarece que muitas vezes não é que haja algo "errado" na mulher, mas que a estimulação é inadequada. "Às vezes estimulamo-nos como quando éramos pequenas (de barriga para baixo, pernas cruzadas) e essas posturas são incompatíveis com o pico de prazer", explica.
A especialista recomenda tratar o prazer com a mesma naturalidade que outros aspetos da saúde: se usas óculos para ver melhor, por que não usar um brinquedo para chegar ao orgasmo se o teu clitóris é mais interno? Segundo Alicia, trata-se de hábitos, autoconhecimento e prática, não de patologias.

A "dieta sexual" e o perigo do abuso de brinquedos
Em relação aos brinquedos, Alicia introduz um conceito fundamental: a dieta equilibrada. Após o boom dos sugadores, muitas mulheres chegaram à sua consulta preocupadas porque já não sentiam nada. Alicia explica que o corpo gera tolerância: se sempre usas o nível máximo de vibração, o corpo adapta-se e pede mais.
O seu conselho profissional é não deixar tudo nas mãos da ciência. Recomenda uma "terapia combinada": começar manualmente para reconhecer as tuas próprias sensações e usar o brinquedo como apoio, variando sempre as intensidades e os ritmos para não "anestesiar" a zona.

Autoestima e comunicação: as disciplinas pendentes
Para terminar, Alicia conecta o prazer com a mente. Uma baixa autoestima faz-nos sentir pouco merecedoras de prazer, o que cria barreiras invisíveis. E sobre a comunicação, Alicia dá um dado demolidor: as mulheres têm taxas altíssimas de fingir orgasmos.
A sua recomendação para romper isto é clara:
- Fala desde ti: "Estive a fingir e quero deixar de o fazer", sem culpar o outro.
- Local adequado: As críticas e pedidos, sempre em privado e num momento tranquilo, não no meio da festa.
- Responsabiliza-te: Se não te conheces a ti própria, não podes dar orientações claras ao teu parceiro. Ninguém tem dotes de adivinhação.
O desfrute como verdadeira meta do prazer
Ficamos com uma reflexão final muito potente da especialista: "O orgasmo não é a meta de uma relação sexual, é a consequência. A meta real deve ser sempre o desfrute". Se nos concentrarmos no caminho e tratarmos o prazer com a mesma naturalidade com que cuidamos de qualquer outra parte da nossa saúde, o clímax chegará sozinho, sem forçar.
Queres contactar Alicia Ridao?: Queremos agradecer a Alicia pela sua proximidade e clareza ao quebrar estes tabus connosco. Se queres saber mais sobre o seu trabalho ou contactá-la para acompanhamento profissional, podes fazê-lo através dos seus canais oficiais de Instagram e do seu site.

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