A doença não afeta apenas o corpo, mas transforma profundamente o vínculo do casal. Quando o papel de "companheiro" se mistura com o de "cuidador", a identidade erótica pode ser comprometida. Hoje falamos com Andreia Rodrigues Silva, especialista em Saúde Sexual com certificação europeia, sobre como navegar estas mudanças e recuperar o espaço de prazer.
Trajetória e foco em sexologia clínica
ViveLaVita: Para começar, gostaríamos que nos contasses um pouco sobre a tua trajetória na sexologia clínica e a tua experiência no acompanhamento de casais.
Andreia Rodrigues Silva: A minha trajetória desenvolveu-se de forma progressiva no contexto da Medicina Geral e Familiar, onde a sexualidade surge como uma dimensão transversal à saúde física, psicológica e relacional. Um momento relevante foi a minha formação em comunicação clínica (pós-graduação e mestrado), que me permitiu desenvolver competências para abordar temas sensíveis com maior estrutura, empatia e intencionalidade clínica.
Sabemos que a maioria das pessoas não inicia espontaneamente conversas sobre sexualidade em contexto clínico. Por isso, o profissional de saúde assume um papel central para introduzir o tema de forma proativa e respeitosa. Na prática, tenho observado que, ao centrar a comunicação na pessoa e eliminar julgamentos, os utentes sentem-se mais confortáveis para abordar estas questões.
O impacto da doença no casal
ViveLaVita: Quando a doença entra pela porta, os papéis sofrem frequentemente uma reviravolta. Qual é o primeiro impacto na identidade erótica?
Andreia Rodrigues Silva: É frequente observar uma reorganização dos papéis com uma maior centralidade nas funções de cuidado. Clinicamente, isto afeta a identidade erótica porque o desejo está associado à perceção de alteridade (reconhecer o outro como alguém distinto, autónomo e desejável). Quando a relação se estrutura predominantemente em torno do cuidado, essa dimensão pode ser atenuada.
Além disso, a doença tende a ocupar um espaço emocional e logístico significativo. Não se trata necessariamente de uma perda de interesse, mas sim de uma mudança de prioridades e de disponibilidade.
O desejo e a dependência funcional
ViveLaVita: De que forma é que a dependência funcional desloca o desejo e como se pode recuperar esse espaço?
Andreia: O cuidado contínuo pode associar-se a estados de fadiga e sobrecarga, que não facilitam o desejo espontâneo. O contacto físico adquire um significado funcional associado a tarefas de cuidado, alterando a experiência do toque.
É útil ajudar o casal a diferenciar intencionalmente o “toque de cuidado” do “toque de intimidade”, reintroduzindo momentos de contacto físico sem finalidade clínica. É importante normalizar que o desejo, nestes contextos, nem sempre surge de forma espontânea. O objetivo é apoiar o casal na construção de um espaço íntimo ajustado à sua realidade atual.
Comunicação: a arte de "falar com açúcar"
ViveLaVita: O/a cuidador/a vive frequentemente uma ambivalência emocional. Que estratégias de comunicação podem ajudar?
Andreia: A ambivalência entre o desejo de proximidade e o cansaço é comum. Algumas estratégias-chave baseadas na evidência são:
Expressar necessidades na primeira pessoa, evitando uma linguagem acusatória (o que chamo "falar com açúcar").
Validar a experiência do outro.
Escolher momentos adequados para a comunicação.
Reconhecer a sexualidade como uma dimensão legítima da saúd
Renegociar o mapa do prazer
ViveLaVita: Como se trabalha a “renegociação” do mapa do prazer em contextos de doença ou alteração fisiológica?
Andreia: A abordagem consiste em ajudar a reformular o modelo de sexualidade, promovendo uma perspetiva menos centrada no desempenho e mais na experiência. Utilizamos ferramentas como o foco sensorial para reduzir a ansiedade e facilitar a reconexão com o corpo e com o/a parceiro/a. A evidência sugere que a adaptação às novas condições é central para manter a satisfação e o bem-estar sexual.
ViveLaVita: Como influenciam as alterações na imagem corporal na intimidade?
Andreia: As mudanças pela doença ou pelo tratamento influenciam a forma como a pessoa se perceciona, o que pode levar ao evitamento. Aqui, a resposta do/a parceiro/a é vital. A validação e a aceitação contribuem para reconstruir a segurança. Em consulta, trabalhamos a relação com o corpo de forma progressiva e compassiva.
Entender que a sexualidade se transforma, mas não tem de desaparecer, é o primeiro passo para curar o vínculo do casal durante a doença. Andreia Rodrigues Silva oferece um espaço seguro, confidencial e baseado na evidência para abordar estas dimensões de forma integrada.
Atualmente, a Andreia exerce no Serviço Nacional de Saúde (Centro Integrado de Saúde Sexual do Porto) e no setor privado no Hospital da Luz da Póvoa de Varzim e na Clínica My Secret Clinic (Vila do Conde). O acesso pode ser feito por referenciação no SNS ou através de marcação direta no setor privado.
+ Bibliografia
Bibliografia consultada para a redação deste artigo:
A Dra. Andreia Rodrigues Silva é especialista em Medicina Geral e Familiar com uma sólida trajetória na Sexologia Clínica. É mestre em Comunicação Clínica e detém a Certificação Europeia em Medicina Sexual (FECSM). O seu foco profissional centra-se na abordagem à sexualidade de forma integrada, articulando as dimensões biológicas, psicológicas e relacionais da saúde.
Atualmente, desenvolve a sua atividade clínica no Serviço Nacional de Saúde (Centro Integrado de Saúde Sexual do Porto) e em contexto privado no Hospital da Luz da Póvoa de Varzim e na Clínica My Secret Clinic (Vila do Conde). É uma especialista comprometida com a comunicação empática e a renegociação do bem-estar íntimo em contextos de saúde complexos.

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